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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Um Iraque diferente


“Sei do perigo de cobrir uma guerra, mas, mesmo assim, gostaria de voltar e terminar o meu trabalho. É muito interessante”


Em um dia foi informado que poderia ir cobrir a guerra no Iraque, duas semanas depois já estava com a mala pronta e um equipamento de 80 mil dólares sob sua responsabilidade.


O jornalista da TV Bandeirantes Herbert Moraes, primeiro goiano a cobrir uma guerra, ou uma “pré-guerra”, conta em entrevista exclusiva para o Jornal Opção todos os detalhes sobre como é o Iraque sob um foco nada sensacionalista, e, sim, humanista.

Herbert traça o perfil da sociedade iraquiana, seus costumes, curiosidades e fala sobre fatos que o marcaram.


Como foi repórter e cinegrafista ao mesmo tempo, além de fotógrafo, Herbert Moraes retrata uma Bagdá com a riqueza de detalhes da informação narrada pelo povo e documentada por suas lentes.


Nas imagens apresentadas a seguir, Herbert conseguiu documentar lugares proibidos de serem fotografados e que se há 30 dias existiam, hoje, quatro dias do início da guerra, já estão todos destruídos.
Euler Belém — Como foi decidido que você iria para o Iraque?
Eu estava na redação, quando o então diretor executivo da Band, Carlos Amorim perguntou, na redação, quem falava bem inglês.
Disseram que eu falava.
Ele, então, me chamou e perguntou como estava o meu inglês.
Falei que estava bom.
Ele disse para eu preparar a documentação e a minha mala que eu iria para o Iraque.
Eles pediram o meu passaporte e uma semana depois voltaram a me chamar.
Foi quando disseram que dentro de quatro dias eu iria para o Iraque.
Estudei muito sobre o Oriente Médio antes de ir.
Euler Belém — Qual é a rota para chegar ao Iraque?
Depende.
O normal seria São Paulo–Amsterdã, Amsterdã–Amã na Jordânia, depois para Bagdá.
O problema no meu caso foi quando cheguei em Damasco, Síria.
O espaço aéreo estava fechado no Iraque, então, tive de pegar um ônibus para Bagdá.
A viagem durou quatorze horas.
Euler Belém — Quantos quilômetros?
São mil quilômetros no deserto.
Euler Belém — Qual era o ônibus?
Uma marinete, o mesmo que aquelas jardineiras antigas.
Era um ônibus velho, sem banheiro.
O vidro da frente estava quebrado e entrava um poeirão terrível.
Euler Belém — Tem militares na estrada?
Tem e eles checam tudo.
Como eu estava com o pessoal da Federação das entidades árabes, e eles eram convidados do governo iraquiano, não tive problema.
Euler Belém — Você foi a convite do governo iraquiano?
A Band não, mas, nos quatro primeiros dias, estive acompanhado de um grupo que estava a convite do governo do Iraque.
Por isso, tivemos algumas regalias.
Por exemplo: quando entrei na Síria, tive problema com o equipamento, já no Iraque, não.
Na saída, tive problemas, porque não estava mais com o grupo.
Quase que não consigo voltar.
Patrícia Moraes — O seu equipamento foi apreendido?
Foi apreendido na Síria.
A Síria tem um problema sério com Israel por causa das Colinas de Golan.
Israel tomou as Colinas de Golan da Síria.
Não chega a ser uma guerra, mas é um problema militar.
Por isso, eles desconfiam muito de quem entra com equipamento.
Na Síria, não pude usar o meu equipamento.
Euler Belém — A estrada entre Síria e Bagdá tem restaurante?
Somente depois de ter entrado no Iraque a gente parou num posto militar que tinha um restaurante e havia um pessoal preparando carneiro.
Ofereceram carneiro, mas o grupo que estava comigo e eu não aceitamos.
Estava muito frio, eram umas seis horas da manhã.
Tomamos um chá e comemos pão sírio, que eles fazem na hora, com queijo.
Euler Belém — Como era sua alimentação no Iraque?
Comida árabe.
Eles fazem um arroz-de-carreteiro muito bom.
Euler Belém — Arroz-de-carreteiro com carneiro?
Com carneiro, tabule e homus.
Eles comem muito pepino.
No café-da-manhã eles comem tomate, pepino, azeitona, homus. [pasta de sementes de grão-de-bico]
Euler Belém — Na Síria, como eles analisam a situação entre Iraque e Estados Unidos?
A Síria tem uma relação muito boa com o Iraque.
Ambos são governos ditatoriais.
É normal para eles passarem o poder de pai para filho.
Eu não acredito que essa invasão americana vá provocar um movimento do povo contra Saddam Hussein.
Euler Belém — Quais são as conseqüências do embargo econômico na sociedade iraquiana?
O abastecimento alimentar é contornado com os países vizinhos.
Tanto na Síria como no Iraque não há Coca-Cola.
Eles tomam uma bebida parecida com Pepsi que é produzida no Irã.
Refrigerantes vêm do Irã, arroz do Vietnã e açúcar do Brasil.
O mercado negro é muito grande e sem nenhum tipo de controle do governo.
Há muita mercadoria da China, Taiwan e Irã.
Mesmo tentando contornar as dificuldades provocadas pelo embargo, o Iraque tem 1 milhão de famintos.
Euler Belém — A vida em Bagdá é muito cara?
Muito cara.
O dinar iraquiano não vale nada.
Por exemplo, 1 dólar corresponde a 8 notas de 250 dinares, isto é, 2 mil dinares.
Com 2 mil dinares se consegue comer bem em Bagdá.
Com 10 dólares pode se comer um banquete no restaurante mais caro.
Eu entrevistei um garçom que ganha um dólar por dia e estava muito feliz.
O recepcionista do hotel onde eu estava hospedado ganha 75 dólares por mês, que é muito no Iraque.
Euler Belém — Água é importada?
A água de garrafa é do Irã.
O grupo que ficou comigo durante quatro dias tomou água da torneira do hotel e teve diarréia.
Patrícia Moraes — Como é o sistema de saúde?
O Hospital Central de Criança Saddam Hussein já foi referência no mediterrâneo e, hoje, não tem mais nem equipamentos, tudo está sucateado.
Não há nem mesmo antibióticos básicos. Quem tem leucemia está condenado a morte, por exemplo.
Euler BelémVocê falou que o iraquiano está pronto para a guerra, e que respeita muito Saddam Hussein.
Qual é a explicação?
Um pouco é resultado da repressão, e a outra explicação é a lealdade e a admiração por Saddam Hussein.
O fato de ele ter sido soldado e, hoje, ser um líder faz com que tenha respeito na sociedade.
Euler Belém — Existe oposição a Saddam Hussein?
Existe uma oposição, mas bem camuflada.
Euler Belém — Se os Estados Unidos conseguirem derrubar Saddam Hussein vão conseguir implantar um novo governo?
Não. Se Saddam Hussein cair, quem vai governar é Frank Tomy, que é o senhor dos anéis.
É impossível implantar uma democracia onde existem tribos.
Os curdos, os sunitas, os xiitas possuem estilo de vida diferente.
Patrícia Moraes — A ditadura Saddam Hussein oferece condições de vida para a sociedade?
Oferece.
Não existe analfabetismo no Iraque, são 6 milhões de crianças estudando.
Patrícia Moraes — Mas a saúde é precária.
A saúde é precária, porque existe o embargo, mas todos têm acesso aos hospitais, e, antes do embargo, o governo dava tudo para os iraquianos em termos de saúde. As universidades são públicas ou particulares. Eu fui a uma universidade de economia, onde os alunos pagam 100 dólares por ano. Todos os iraquianos querem trabalhar para o governo.
Patrícia Moraes — Há muita diferença social?
Tem classe alta, média e baixa.
O bairro mais miserável de Bagdá é habitado por curdos que são contra o regime de Saddam.
Lá, a miséria é como em São Paulo.
Não há saneamento, recolhimento de lixo.
O governo abandonou a população.
As pessoas ricas trabalham para o governo.
Euler Belém — Você chegou a conversar com algum opositor ao regime de Saddam Hussein?
Conversei com um homem, na feira, que não concordava com o governo Saddam.
Foi a única pessoa entre as centenas que eu conversei que falou mal do governo Saddam.
Disse que, apesar de não gostar, tinha que abaixar a cabeça, porque mora ali e trabalha para o governo.
Ele também disse que não podia falar mal do governo Saddam dentro da casa dele para os filhos. E quando fala do governo é para a mulher, trancados no quarto, e muito baixo.
Euler Belém — Como você se comunicava com as pessoas?
Eu tinha um guia que trabalhava para o Ministério das Relações Exteriores.
Tudo o que ele me dizia era filtrado.
Era de acordo com o que ele achava que eu podia saber.
Em Bagdá, os jornalistas são obrigados a sair com guia.
Uma vez eu fui fazer uma reportagem junto com um jornalista português.
O tema era a saída dos iraquianos de Bagdá.
Fomos a uma empresa de ônibus internacionais que fazia Bagdá–Damasco, Bagdá–Amã.
Quando estávamos entrevistando o dono de uma loja, o guia do jornalista português, que era uma pessoa medrosa, disse que ninguém estava deixando Bagdá.
Eu percebi que a tradução não tinha sido verídica e fui dar uma volta, foi quando conversei com um funcionário da mesma loja.
Perguntei como estava o negócio e ele falou que o número de pessoas viajando tinha aumentado por causa da guerra.
Euler Belém — Para onde os curdos vão?
Para a Síria, Jordânia.
Euler Belém — Você notou tensão e medo nas pessoas?
Muito disfarçado.
As pessoas estavam seguindo com a vida normalmente, mas por causa do governo.
A imagem que aparece das crianças jogando bola foi colocada na televisão pelo governo, que não revelou o limite de 48 horas estipulado pelos Estados Unidos para o início da guerra.
O governo maquia muito.
Euler Belém — A televisão estatal controla tudo?
Tudo.
São três canais que a toda hora passam clipes horrorosos do Saddam Hussein e músicas em sua homenagem.
As mensagens são passadas exaustivamente na televisão.
Há dois anos que ele não aparece em público.
Patrícia Moraes — Que característica da sociedade pareceu mais interessante para você?
Várias.
As mulheres são gordas e os casamentos são muito interessantes.
Os noivos não participam da festa de casamento.
Eles chegam depois com a família.
Os homens não participam desse ritual.
Participam da festa as mulheres de ambas as famílias que são as mães, irmãs, a tia da tia, a cunhada da cunhada.
É a família inteira mesmo.
Elas vão para a porta do elevador e começam a cantar, representando a hora do acasalamento.
O noivo sobe em um elevador com a família dele e ela sobe em outro elevador com a família dela. Eles chegam ao andar das núpcias e as famílias acompanham os noivos até a porta do quarto.
A noiva chora, se despedem e a família volta para a festa.
Patrícia Moraes — Vestida de branco?
Vestida de branco, de véu e grinalda.
Patrícia Moraes — Muitas jóias?
Muitas pedras preciosas e muita maquiagem.
As mãos também são pintadas.
Euler Belém — Os homens também são gordos?
São e todos usam bigode.
Fumam muito, exageradamente.
Euler Belém — Cigarro ou cachimbo?
Cigarro.
É estranho quem não fuma.
Não fumar e não ter filhos é estranho no Iraque.
No elevador, tem cinzeiro.
Outra coisa muito interessante aconteceu quando fui de Bagdá para Damasco.
Eu estava no avião de uma empresa iraquiana, quando, de repente, o piloto que estava taxiando na pista começou a rezar.
Depois, todos começaram a fumar.
Euler Belém — Você não ficou sufocado?
Na hora eu chamei a aeromoça e perguntei se as pessoas podiam fumar.
Ela disse que sim.
As mulheres não fumam, mas todos os homens fumam.
Euler Belém — As pessoas se paqueram?
Eles não são como no Irã ou no Afeganistão.
Não são tão radicais com a religião.
Nem todas as mulheres usam véu.
Depende da tribo.
Os xiitas admitem que elas usem véu, mas não precisam usar burca;
as sunitas podem usar maquiagem e não precisam usar véu.
Euler Belém — Tem prostituição?
Tem, mas muito disfarçada na Rua Arassat, a mais chique de Bagdá.
Onde estão os bons restaurantes e lojas.

Euler Belém — A riqueza é ostensiva?
Os prédios, as construções?
Não.
A riqueza é vista somente nos Palácios de Saddam Hussein.
Euler Belém — As companhias de petróleo são todas do governo?
São todas estatais.
Tem algumas companhias estatais que possuem acordos comerciais com França, Rússia.
Euler Belém — Você não tem medo de cobrir guerra?
Não tive medo nenhum.
No primeiro dia, quando peguei o ônibus de Damasco para Bagdá, tive um pouco de medo. Durante as 14 horas de viagem, o motorista deu carona para uma família com cinco filhos, um iraquiano e a mulher.
E para dois tunisianos que estavam indo para Bagdá fazer parte de um protesto pró-Iraque.
No meio do caminho, eu tomei um Dramin para dormir.
Eu nunca tinha tomado Dramim e apaguei.
Atrás do ônibus tinha um banco grande que a gente revezava, porque dava para deitar.
Na minha vez, como eu tinha tomado Draminm, dormi e não acordei mais.
O pessoal ficou nervoso comigo, porque não tinha cristo que me levantasse.
Numa determinada hora da viagem o ônibus parou numa barricada, todos desceram e eu continuei dormindo.
Alguém pediu para que o tunisiano me acordasse.
Ele era escuro, grandão, vestia um casaco preto e usava bigode.
Ele foi me acordar sacudindo e falando árabe.
Eu só via esse homem falando árabe comigo, de casaco preto, com cara de árabe.
O ônibus vazio, pensei: bom, mataram todo mundo e só faltou eu.
Me descobriram aqui no canto e agora sou eu.
Nesse momento, alguém lá fora me chamou: “Herbert desce daí”.
Foi quando eu me acalmei. [Risos]
Euler Belém — Você gritou?
Não, fiquei olhando, parado.
Ainda estava sob o efeito do remédio.
Esse foi o único medo que passei.
Euler Belém — Você ainda pode voltar para o Iraque. Agora não é mais arriscado?
É. Eu não voltaria para o Iraque, porque, como não há serviço de embaixada, não há ninguém para autorizar a entrada no país.
Agora é cada um por si.
Euler Belém — Como os jornalistas do New York Times conseguiram entrar?
Porque eles já estavam em Bagdá.
Euler Belém — Eles não saem também?
Se quiserem, podem sair.
Euler Belém — Onde eles ficam?
Há alguma área de menos risco?
Não.
Toda a imprensa fica no prédio do Ministério da Informação, porque ninguém pode trabalhar fora.
Embaixo do prédio existe um abrigo antiaéreo.
Esse pode ser um dos alvos. [No primeiro dia de bombardeio este prédio foi um dos primeiros alvos acertados.]
Euler Belém — Você iria para o Kuait ou para a Síria?
Iria para o Kuait.
A Síria está muito longe de Bagdá.
Patrícia Moraes — Há muitos abrigos espalhados pela cidade?
Muitos.
Euler Belém — Você acha que Saddam Hussein foge?
Ele não tem uma Al Qaeda.
O Bin Laden tem uma rede atrás dele e pode se esconder em cavernas.
Saddam Hussein não é o tipo que se esconde em caverna.
Euler Belém — Você sabe de algum grupo terrorista finlandês ligado ao Saddam?
Desconheço essa história.
Eu encontrei dois finlandeses no Iraque e achei estranho.
Na Síria, também tinha um finlandês.
Euler Belém — Qual o motivo que eles dão para a guerra?
Petróleo.
Eles odeiam os americanos.
Patrícia Moraes — Você falou de uma curiosidade da sociedade.
Agora me fala sobre alguma coisa que te surpreendeu?
As privadas.
Não tem privada, é latrina.
No banheiro tem um buraco, com um lugar para colocar os pés e é preciso abaixa para fazer as necessidades.
Euler Belém — Um mau cheiro terrível?
É.
Tem outra curiosidade.
O grupo que viajou comigo me disse que as fezes ficariam da cor de doce de leite.
Foi dito e feito.
Euler Belém — Por que acontece isso?
Por causa da comida.
Não sei o que eles usam, mas ficou parecendo doce de leite.
Eu estava no aeroporto, na Síria, quando fui usar o banheiro e vi umas fezes com a cor também de doce de leite.
O povo, realmente, tem as fezes cor de doce de leite.{risos]
Euler Belém — Como são os jornais?
Tem um jornal para estrangeiros, o Irait Dain, que é uma porcaria.
O papel é bom, mas no canto sempre tem um pensamento de Saddam com uma foto dele.
A primeira manchete sempre é alguma coisa relacionada a Saddam.
Tem umas matérias ridículas de meia página sobre como surgiu o guarda-chuva.
Patrícia Moraes — Quanto da sociedade fala inglês?
Muito pouco e eles falam um inglês macarrônico.
Somente quem trabalha no alto escalão do governo fala inglês.
Mas, nas escolas, têm aulas de espanhol e de inglês.
Euler Belém — Quais são as marcas físicas e psicológicas da guerra de 1991?
Física nenhuma, porque tudo o que foi bombardeado, foi demolido.
Por isso, há muito espaço aberto em Bagdá.
Al Meria era um abrigo para 450 crianças e mulheres.
Todos estavam lá, no dia do ataque, em 1991.
Eles preservaram o lugar como ficou naquela época.
Quando se entra, ainda é possível sentir o cheiro de queimado.
Doze anos depois, é impressionante.
Todas as 400 e tantas pessoas que estavam lá dentro morreram.
No teto do abrigo está o buraco do míssil que entrou.
Euler Belém — Há alguma possibilidade de você ter que voltar?
Toda.
Eu sou a única pessoa que tem visto na Bandeirantes para entrar no Iraque.
Euler Belém — É cara a estada no Iraque?
É.
Eu gastei 4 mil dólares em duas semanas.
O hotel é muito caro.
Eu fiquei em dois hotéis.
Em um hotel gastei 400 dólares e, no outro, 1.700 dólares.
Gastei muito com telefone, porque tinha que ligar para os guias.
Do dia 20 a 25, gastei 200 dólares por dia para poder trabalhar.
É preciso ter uma autorização do Ministério da Informação, que, na verdade, é uma forma deles tirarem dinheiro dos jornalistas.
Eles cobram 200 dólares por dia para o jornalista poder trabalhar.
No total, eram 200 dólares e mais 100 dólares para o guia indicado por eles, ou seja, esse dinheiro também vai para o ministério.
Como foram 300 dólares por dia, em cinco dias eu gastei 1.500 dólares.
Na Babilônia, também gastei muito.
Logo que cheguei, comecei a filmar quando um homem que fica vigiando me perguntou se eu tinha autorização do Ministério do Patrimônio Histórico e da Cultura, que custa 5 mil dólares.
Como eu não tinha, o guia, que estava comigo, me disse para seguir a visita sem a câmara.
Eu segui com o guia da Babilônia e o outro que mora lá ficou conversando com o meu guia. Quando voltei, o guia que me mostrou a Babilônia foi embora e o meu guia me disse que, se eu pagasse 200 dólares para o guia que mora lá, poderia filmar.
Paguei e filmei tudo, até um dos palácios de Saddam Hussein que não podem ser filmados.
Tudo em Bagdá funciona com propina.
É o “rachim”.
Euler Belém — A Babilônia está conservada?
Está bonita.
Na verdade, como tudo foi destruído e o que sobrou foi levado pelos alemães.
Saddam Hussein reconstruiu tudo.
Quando se entra na Babilônia há uma placa enorme com o perfil de Nabucodonosor [que viveu antes de Cristo] e, ao lado, o perfil de Saddam Hussein.
Ele gosta de se igualar aos grandes reis da Mesopotâmia, tanto que construiu um palácio ao lado.
Euler Belém — Não há turistas?
Desde 1991, os 1.500 turistas que visitavam a Babilônia, por dia, sumiram.
Patrícia Moraes — Você entrevistou o vice-primeiro ministro, Tarik Aziz, o que ele falou?
Perguntei para ele que opinião tinha sobre a afirmação de George W. Bush de que o Iraque seria o 54º Estado americano depois do ataque.
Ele respondeu que era um absurdo, que o povo iraquiano não iria admitir essa supremacia americana e que todos os iraquianos estavam preparados para a guerra.
Então perguntei se ele estava preparado.
Ele falou que estava e que jamais abandonaria o Iraque.
Patrícia Moraes — Você passou por algum treinamento de segurança?
Nada.
Euler Belém — Você está com vontade de voltar?
Estou, porque é muito interessante.
Mas, como tenho noção do perigo, passaria por um treinamento de segurança, como o jornalista Caco Barcelos, na Inglaterra, antes de ir.
Euler Belém — Caco Barcelos foi para o Kuait?
Marcos Uchôa está no Kuait.
Eu só iria se tivesse um aparato maior.
Eu não iria como fui dessa vez, carregando equipamento de 180 mil dólares na mão.
Euler Belém — Por que a Globo foi expulsa do Iraque?
Quem a tirou de lá?
Dizem que foi por causa da história dos guias.
Em uma das reportagens do Luiz Carlos Azenha, ele falou que, finalmente, tinha conseguido entrevistar os iraquianos para saber o que eles pensavam sobre a vida em Bagdá.
O embaixador do Iraque, na hora, ligou daqui para o Iraque e contou.
Na mesma hora, mandaram eles de volta.
Euler Belém — Como é o clima?
À noite, agora, faz muito frio, porque é inverno.
Mas, na quinta-feira, 20, começa a Primavera.
Euler Belém — Lá tem árvores?
Muitas tâmaras.
Euler Belém — Você viu alguma livraria, banca de revista?
Não.
Euler Belém — E farmácia?
Poucas .
Euler Belém — A presença militar lá é ostensiva?
É.
Não se pode fotografar nada.
No dia que eu fotografei o prédio com a imagem de Saddam o policial quis tomar a minha câmera.
Euler Belém — Com fuzil na mão?
Fuzil na mão.
Euler Belém — Fuzil novo?
Não, velho. Tudo sucateado
Patrícia Moraes — Como é o povo iraquiano?
São amigáveis, inteligentes e interessados.
Euler Belém — Não perguntaram se você era jogador de futebol?
Toda hora eles falavam Ronaldo, Ronaldinho.
Patrícia Moraes — Há boates, bares para sair à noite?
Não.
O estádio de futebol funciona todos os dias com jogos ou shows de música.
Eles prezam muito a família.
Euler Belém — Há droga?
Quem usa droga é condenado à morte.

domingo, 12 de agosto de 2007

BUSH QUER...?

Saddan desfila entre a população no dia 5 de abril após a invasão iniciada no dia 20 do mês anterior. O povo armado se dispõe a combater os invasores

Bush quer que Israel seja o maior Estado do Oriente Médio

O jornal egípcio Al-Osbou publicou no dia 4 de novembro de 2002 uma entrevista do Presidente Saddam Hussein a Sayyid Nassar, a primeira concedida em 12 anos. Nela Sadam prevê vários acontecimentos após a invasão dos USA.


Inicialmente gostaria de perguntar como o senhor explica a posição árabe a respeito do Iraque, as sanções e ameaça de guerra que pesam sobre o Iraque.

Nós não pedimos aos dirigentes árabes mais do que eles podem dar. Nós avaliamos a posição de cada país, sua posição sobre a carta política e sua atitude de sacrifício é relativo a história do país, às suas capacidades e às opiniões de seus dirigentes. Nós estamos a grosso modo satisfeitos. Os fatores positivos são cada vez mais numerosos enquanto o número de fatores negativos estão em baixa. A tendência geral é uma aproximação com o Iraque. Eu posso honestamente afirmar que os fatores positivos estão progredindo, assim os fatores negativos diminuíram, a medida que a justa escolha política se afirma e domina a cena política.

Senhor presidente,o senhor deve ter às vezes algumas reservas a certos países árabes a respeito do Iraque.

A mim interessa os fatores positivos. Como tenho dito, os fatores negativos desaparecerão por eles mesmos quando todo o mundo entender quais são as verdadeiras intenções, nossas circunstâncias atenuantes, e que este complô é contra nós e contra eles. O Iraque não é o único país ameaçado por complô. O USA quer impor sua hegemonia sobre a região, hostiliza todos os países árabes, sobretudo os que têm uma importância chave. Isto tudo serve a entidades do sionismo internacional.

Senhor presidente, o que o USA quer precisamente do Iraque?

O USA quer destruir o centro de poder no mundo árabe, e pouco lhe importa se este se encontra em Damas ou Bagdá! Observem em torno de vocês e vejam o jogo que eu faço na região. Vejam o que se passa no sul do Sudão, os esforços desenvolvidos para separar o Norte do Sul e para influenciar o nosso grande irmão Egito, (ameaçar) sua unidade nacional, assim como a segurança nacional de todas as nações árabes! Veja o que se passa na Argélia, o que aconteceu e continua acontecendo na Somália e todos os países do “Corne” da África. Veja o que se passa na Palestina, ao que Sharon submeteu os nossos irmãos palestinos. Tudo isto mostra a importância do complô que se arma contra nossas nações árabes.

Senhor presidente, passando do geral para o particular, o que quer o USA do Iraque?

O USA quer impor sua hegemonia no mundo; de início ele quer controlar o Iraque, depois tomar as capitais que resistirem, revoltando-se contra sua hegemonia. O controle militar será feito a partir de Bagdá, atacará Damas e Teerã. Dividirá e causará problemas maiores na Arábia Saudita. Tentará criar pequenas entidades controladas por pessoas encarregadas da segurança e trabalhando para eles, afim de que nenhum país seja maior que Israel, nem quantitativamente, nem qualitativamente. Assim, o petróleo árabe ficará sobre o controle ianque; em particular, as reservas petrolíferas estarão, depois da destruição do Afeganistão, totalmente sob o controle ianque. Toda esta estratégia é de interesse sionista, tendo como objetivo fazer de Israel um grande império na região. O problema do Iraque é que se opõe a todos estes complôs. Pois os outros (países árabes) não entendem que nós os defendemos. Todos deverão perceber que ninguém será remunerado pelo (complô) que se trama atualmente contra o Iraque. Do ponto de vista ianque e sionista, todos (os países árabes) estão no mesmo cerco e, mais tarde, todos terão o mesmo futuro.

Este complô do esfacelamento abrange igualmente a Arábia Saudita e os Estados do Golfo?

Eu não sou destes (sic) que pensam que a Arábia Saudita será dividida e que o Yemen e Oman se beneficiarão da situação, ou que os esforços serão desdobrados para derrubar os emirados do Golfo. Eu penso, ao contrário, que o modelo destes pequenos emirados vá se estender na região. E todos os países importantes como o Iraque, a Síria e a Arábia Saudita serão reduzidos a pequenos emirados logo que os recursos do petróleo se encontrarem nas mãos de minúsculos Estados, de maneira a servir os interesses do USA, e que obterão também o controle total dos poços de petróleo, da Argélia aos países do mar Cáspio. Depois de dominar o Afeganistão, o USA estará pronto para abater o Iraque, o Irã e a Síria.

Senhor presidente, há duas semanas, a Coréia do Norte admitiu, e mais precisamente, anunciou (sem qualquer pressão), que tinha um programa de arma nuclear. Ora, nós não assistimos qualquer reprovação do USA como no caso do Iraque, e além disto o Iraque declarou não ter arma de destruição em massa, como afirmaram os inspetores. O que significa isto no seu entender?

Em uma palavra, a Coréia do Norte não tem petróleo. É o principal ponto. O segundo ponto é que a Coréia do Norte não é inimiga de Israel, e não é também um de seus vizinhos.

Senhor presidente, quero lhe fazer uma pergunta cuja resposta já sei qual será; quero simplesmente sua confirmação. O senhor detém ainda prisioneiros kwaitianos, sabendo que o Kwait exige sua libertação como condições de reconciliação?

O senhor sabe, como todo mundo, que eu anunciei a libertação de todos os prisioneiros, quer fossem por motivos políticos ou outros, quer fossem árabes ou iraquianos. Todos, menos os espiões a serviço de Israel ou do USA. Nós soltamos mesmo os assassinos, com a condição de que seja feito um acordo entre as famílias dos assassinos com as família das vítimas, e que a anistia seja aceita por ambas as partes. As prisões iraquianas tornaram-se as únicas prisões do mundo a ficarem vazias... E os diretores das prisões estão num dilema, porque eles precisam encontrar um emprego já que as prisões estão vazias... Nós transformamos as prisões em orfanatos para atender as vítimas dos ataques cotidianos dos mísseis perpetrados pelo USA no sul e no norte do país, e na região de Bagdá, diante da indiferença do mundo.

Senhor presidente, o senhor pensa que o ataque é iminente?

Nós nos preparamos como se a guerra fosse declarada em uma hora. Nós estamos psicologicamente preparados. O USA, com seus ataques diários, a partir de países vizinhos, seus esforços para nos enfraquecer e matar civis quotidianamente, com seus mísseis aéreos e sua artilharia, nos dá um sentimento de estar em guerra desde janeiro de 1991. Nós estamos portanto preparados para uma guerra. Mas o Iraque não se tornará jamais um Afeganistão. Isto não significa que somos mais fortes que o USA, visto que ele tem mísseis de longo alcance e forças navais, mas que nós temos fé em Alá, em nossa pátria e no povo iraquiano. E, o que não podemos negligenciar, nós temos fé na nação árabe. Esta guerra não será um piquenique para os soldados ianques e britânicos. De modo algum! A terra está sempre do lado de seus proprietários.

Senhor presidente, voltemos ao nosso ponto de partida: o senhor está satisfeito com a posição de um certo número de países árabes a respeito do Iraque, de sua reação aos complôs hostis dos ianques e dos britânicos? O senhor não pensa que há um revés injusto?

Eu estou satisfeito com todos os esforços desenvolvidos para apoiar a sólida posição árabe favorável ao Iraque e à Palestina. O problema não se limita mais ao Iraque: tornou-se um problema de toda a nação árabe, de Tanger à Bagdá. Nosso destino é um, e ele está escrito no sangue dos mártires. Para os que crêem que o Iraque ainda está em disputa com o Kwait, (permita-me precisar que) todos os países árabes têm problemas com os Estados árabes vizinhos. Nós pensamos que todo sucesso obtido por um Estado árabe, qualquer que seja, incluindo o Kwait é (também) um sucesso para nós. O Kwait é uma nação árabe que crê no seu pan-arabismo. O recente ataque de uma base ianque (no Kwait) é a prova.
Nós depositamos uma grande parte de nossa confiança na Nação Árabe. Contrariamente ao que muitos pensam, a nação árabe não está completamente adormecida. As manifestações internacionalistas no mundo árabe e no Ocidente reúnem as forças de milhares de partidários da paz e de opositores à guerra e à agressão contra o Iraque. Estas manifestações representam um desafi
o à extrema direita sionista de Washington que se esforça para destruir o Iraque.

Senhor presidente, o senhor pensa que o tempo trabalha a favor ou contra o Senhor?

Não tenho qualquer dúvida que o tempo trabalha a nosso favor. Logo, a coligação ianque e britânica se desfaz por razões internas, por causa da pressão exercida pela opinião pública ianque e britânica. As nações sabem a verdade e compreendem (as verdadeiras jogadas) que os dirigentes ocupados nos centros sionistas da mídia realizam complôs que os cegam.

Senhor presidente, para voltarmos a questão inicial: o que realmente os ianques querem no Iraque?

Eles querem um Iraque que aceite a hegemonia ianque, tanto política quanto geográfica sobre os recursos árabes. Eles querem um Iraque que aceite igualmente a existência sionista e o seu controle da Palestina. Eles querem um Iraque destituído de toda ideologia pan-árabe, disposto a destruir a Liga Árabe e estabelecer uma organização meio-oriental. Eles querem um Iraque não-árabe dividido em várias nações.

A oposição iraquiana

Senhor presidente, a oposição iraquiana, cúmplice de Washington e de Londres é para o senhor causa de preocupação? Esta oposição poderá ocupar o regime de Bagdá?

Primeiramente, não existe uma verdadeira oposição que possa nos inquietar. Se existe uma (verdadeira) oposição, ela teria que começar a combater dentro das nossas fronteiras para tomar o poder, e não no exterior, a uma distância de dezenas de milhares de quilômetros. E mais, entre os membros da oposição que nós ouvimos falar sem (jamais) os ver, é que nosso povo não o reconhece, há pessoas condenadas por crimes econômicos e outros crimes morais. Estes membros da oposição, de que nos falam, não tem um objetivo comum: eles não procuram (mesmo) esconder que são agentes do serviço secreto ianque e britânico que são pagos por eles, que desviam e esbanjam os nossos recursos. Para concluir, todos eles não lotam nem mesmo um ônibus para Bagdá.
Senhor presidente, houve recentemente um referendum a respeito da renovação do mandato presidencial para sete anos. Alguns indagavam sobre o resultado de 100% a seu favor. De fato, a cultura ocidental é incapaz de compreender a possibilidade de tal percentagem.

Esta (percentagem) é muito reveladora: mostra que eu trato meu povo com justiça e verdade. Para os que pensam que eu não represento meu povo, vejam a prova do contrário. É o resultado de um referendum realizado em uma nação livre, que foi assistido por observadores e jornalistas árabes e estrangeiros, e que testemunharam a ausência de uma pretensa oposição ao regime iraquiano.

Senhor presidente, o senhor não reagiu da mesma maneira à crise atual como a de 1991. Foi o resultado de um estudo de conjuntura atual, ou passada, ou os dois? o que o senhor aprendeu (da experiência passada)?

A política é a ciência. Pois toda a ciência necessita de experiência. O político é um eterno estudante, que passa seu tempo a tirar lições de sua experiência e a dos outros. Nós damos uma grande importância a opinião pública e ao seu impacto e aprendemos com nossas experiências. É humano errar, corrigir e progredir também. Ninguém é infalível, só Alah é perfeito.

Senhor presidente, não é o tempo de nós nos conciliarmos com nossos irmãos curdos do Norte?

Você sabe muito bem que o Iraque lhes deu o que nenhum outro os deu. Você é o primeiro jornalista árabe que entrevistou Mulla Mustafa Al-Barazani, em 1966, e você entendeu o que ele declarou em sua última aspiração: um governo autônomo. O Iraque aplicou com este desejo. Ceder mais voltará favorecer a discórdia, a discórdia que nós recusamos e que foi recusada por todas as pessoas esclarecidas dentre nossos irmão curdos. Nós estamos convencidos que se o USA e a Grã-Bretanha retirarem sua ajuda do Iraque do Norte e cessarem a intervenção, nós poderemos definir nossa posição com toda liberdade e celebraremos a reconciliação da terra e do povo.

domingo, 15 de julho de 2007

MULHERES AFEGÃS FORA DA ESCURIDÃO

A imagem da cidade de Cabul mudou. Há quatro anos, na anarquia pós queda do regime taliban, não se viam mulheres na rua. Apenas burkas, ondulantes, vestes azuis que retiravam a existência às mulheres. Timidamente os tempos são de mudança. Elas, sobretudo as mais novas, arriscam mostrar o rosto. Não prescindem dos véus ou dos lenços e das saias que lhe escondem as formas até aos pés, mas ganharam expressão. E a cidade está diferente. Claro que Cabul é a cidade afegã mais vulnerável à pressão internacional. Na província a tradição ainda dita as regras, e as regras incluem a burka. É por isso que Aliema, uma jovem de 20, está cheia de sorte. Não usa burka, quer estudar engenharia civil para construir edifícios bonitos no seu país - e o pai autoriza.

As mulheres do Afeganistão educam e se organizam em defesa dos direitos humanos.
Elas vem de uma terra onde as mulheres estão sendo confinadas a escuridão, então Sajeda Hayat e Sehar Saba, para sua própria segurança, precisam permanecer nesta escuridão.
É o alerta do governo fundamentalista Taliban no Afeganistão.

Elas viajam usando pseudônimos e tiram fotos discretamente.

Mesmo assim essas duas jovens se recusam a ficar em silêncio.
Juntando líderes da "Não Violência", o grupo de resistência anti-Taliban, chamada de RAWA, sigla em inglês que significa "Associação Revolucionária das mulheres do Afeganistão", Hayat e Saba tem vivido quase todas as suas vidas como num exílio.
As meninas foram forçadas a fugir para o vizinho Paquistão no começo dos anos 80 durante a invasão soviética no Afeganistão. Foram nos campos de refugiados paquistaneses que elas atingiram a maioridade e aprenderam sobre o trabalho da RAWA, isso para valorizar a mulher afegã.
No final da recente viagem aos Estados Unidos, Hayat e Saba falaram a Amnesty Now sobre o seu trabalho.

A especialista Margaret Ladner que é coordenadora e que representa o Afeganistão na Anistia Internacional dos Estados Unidos no Sul da Ásia conduziu a entrevista.
Amnesty Now: O que é a RAWA e quais os objetivos da organização?
Hayat:
A RAWA foi fundada em 1977 para lutar pelos direitos das mulheres no Afeganistão, porque mesmo antes da invasão soviética e antes dos fundamentalistas, as mulheres eram vendidas como gado. Mas enquanto o país era ocupado pela Rússia, a RAWA mudou sua organização política, porque nós acreditávamos que todas as pessoas tem algum direito a liberdade, isso foi um grande significado para falar sobre os direitos das mulheres. E isso é verdade hoje, porque nós devemos falar sobre os direitos humanos, qualquer pessoa no Afeganistão é privada de muitos direitos básicos. Nós acreditamos que o governo deve ser baseado no secularismo e na democracia.
AN:
Vocês estão fixadas hoje no Paquistão?
Hayat:
No começo dos anos 80 a RAWA transferiu parte das suas atividades para o Paquistão por causa da difícil situação no Afeganistão devido ao regime soviético.
Naquele tempo nós estabelecemos programas seculares, nós tínhamos também uma clínica para mulheres e crianças refugiadas, estabelecemos cursos de enfermagem, literatura e outros cursos para ensinar as mulheres a terem os seus direitos.

AN: A RAWA ainda é capaz de operar dentro do Afeganistão?
Hayat:
É claro, os membros da RAWA especialmente dentro do Afeganistão tem muitos riscos. Até mesmo no Paquistão, durante uma demonstração em 1998, A RAWA foi atacada pelo Taliban. Isso é o porque que nós temos que ter muito cuidado, não somente no Afeganistão mas também no Paquistão.
No Afeganistão, nós temos salas de aula instaladas em casas, cursos de literatura, especialmente para viúvas que não tem parentes homens. Nós a capacitamos para ganhar algum dinheiro.

AN: O quão são ruins as condições para as mulheres no Afeganistão?
Saba:
A situação já não era boa antes mesmo dos fundamentalistas quando eles tomaram o poder. Mas desde 1992 o Afeganistão é como uma grande prisão, especialmente para as mulheres. As mulheres são banidas de todas as atividades públicas, elas não podem ir a escola e nem trabalhar, não podem ir ao médico sem serem acompanhadas por um parente do sexo masculino e elas precisam usar o " Burka " para cobri-las totalmente.
AN:
Vocês tem falado sobre serviços para ajudar as mulheres, mas a RAWA também leva em conta ações políticas?
Saba:
Nós queremos isso o quanto nós fazemos para as mulheres, então nós temos muitas atividades, como por exemplo, demonstramos a nossa causa no dia 28 de Abril, o dia em que os fundamentalistas tomaram o poder, o dia mais negro da história do Afeganistão.
AN: O que vocês levaram em conta durante a viagem que fizeram aos Estados Unidos?
Saba:
Foi realmente uma grande oportunidade para a nossa organização, porque foi a primeira vez que a RAWA veio para os Estados Unidos e nós estamos muito agradecidas.
Estivemos em mais de 15 universidades e falamos com pessoas muito prestativas, havia uma menina de 16 anos de New Hampshire e ela organizou uma demonstração na sua escola no dia 28 de Abril condenando todas as atrocidades humanas no Afeganistão.Ela nos convidou para sua escola, foi a maior reunião que tivemos em 2 meses.
AN: Como nós dos Estados Unidos, podemos ajudar?
Hayat:
Não somente grupos de direitos humanos, mas pessoas do mundo inteiro podem fazer muito. Claro que organizações de direitos humanos como a Anistia Internacional, podem fazer mais, desde que eles estejam ativos nestes campos. Mas indivíduos americanos podem por exemplo ajudar a RAWA com diferentes projetos; um dólar faz diferença, pode prover um caderno, uma caneta ou um lápis.
AN: Como cada uma de vocês se envolveu nesta vida perigosa?
Hayat:
Eu me tornei membro com 17 anos, mas antes disso eu já ia para a escola da RAWA e minha mãe era um membro.
Saba: Eu também era muito jovem quando entrei para a escola da RAWA, isso foi em 1994, os professores eram membros da RAWA e além de ensinar, eles falavam sobre o direito das mulheres, eu me envolvi nessas atividades e me juntei como membro quando eu estava com 17 anos, agora eu estou no Comitee Estrangeiro e ensino em uma de nossas escolas num campo de refugiados.
AN: Os amigos e a família incentivam vocês?
Saba:
Sim, a minha família. Minha mãe é membro da RAWA, meus pais e meus irmãos são muito prestativos. Mas não são todos os meus parentes, alguns deles são contra o meu trabalho.
Hayat: Para mim também, meus pais são muito prestativos com o meu trabalho. Todas as minhas irmãs e meus irmãos estão involvidos na RAWA. Alguns de meus parentes não sabem, mas muitos deles são prestativos, mesmo meu avô e minha avó, eles são muito tradicionais.
AN:
Vocês já sentiram medo nas suas vidas?
Hayat:
Nós não sentimos medo, mas temos que ser muito cautelosas, se nós tivéssemos medo não escolheríamos este caminho, nós sabemos que a luta necessita de sacrifício.
AN: Como vocês tentam amenizar o perigo?
Saba:
Dentro do Afeganistão, todos os lugares que os membros da RAWA vivem são subterrâneos e o mesmo ocorre no Paquistão. Nós temos que por exemplo mudar a toda hora de casa e não deixar que o governo do Paquistão e nem os fundamentalistas saibam onde estamos.
AN:
Tem alguma mensagem que vocês gostariam de transmitir para os membros da AIUSA?
Hayat:
Eu acho que deveria dizer ao mundo o que está acontecendo no Afeganistão.
Saba:
E diga para as pessoas do Afeganistão que eles não estão sozinhos e que não serão esquecidos.


Para mais informações sobre os direitos da mulheres afegãs, contate a AIUSA, programa de direitos humanos das mulheres em Nova York ou visite o site da RAWA (http://www.rawa.org)

Amnesty Now, Uma publicação da Anistia Internacional, EUA, (outono 2000).

http://sic.sapo.pt/online/institucional/No_pais_das_burkas.htm

sexta-feira, 13 de julho de 2007

ENTREVISTA A TRÊS GENERAIS IRAQUIANOS


Artigo colhido no www.globalresearch.ca (Canadá), sobre a situação atual no Iraque


Em vésperas da chamada "transferência de soberania" para o novo governo interino iraquiano em 30 de Junho, ex-generais de Saddam Hussein que se tornaram membros da elite da resistência iraquiana saíram momentaneamente das suas posições clandestinas para explicarem a sua versão dos acontecimentos e falarem das suas intenções.


No ver destes oficiais do Baas, a "grande batalha" no Iraque ainda está para vir.


"Os americanos prepararam a guerra, nós preparamos o pós-guerra. E a transferência de poder em 30 de Junho em nada vai alterar os nossos objectivos. Este novo governo provisório designado pelos americanos não tem legitimidade aos nossos olhos. Não passam de marionetas."


Porque esperaram estes ex-oficiais tanto tempo para saírem dos esconderijos?


"Porque agora estamos certos de que vamos ganhar."


Encontro secreto
Hotel Palestina, terça-feira, 3 horas da tarde.

Uma semana depois do nosso pedido forma, a perspectiva de um encontro com a resistência vai-se tornando mais improvável.

Chegamos a uma série de becos sem saída - até que um homem que nunca víramos antes se aproxima da nossa mesa.

"Continuam a querer encontrar-se com membros da resistência ?"

Dirige-se à minha colega, uma jornalista árabe que já esteve muitas vezes no Iraque.

A conversa é curta.
"Encontramo-nos amanhã de manhã no Hotel Babel", diz o homem antes de desaparecer.

Contra todas as expectativas, este contacto parece ser mais fiável do que todos os que fizéramos antes.
Hotel Babel, quarta-feira, 9 da manhã.

À entrada do cibercafé, atulhado de mercenários estrangeiros, o homem que víramos na véspera deixa cair as palavras:

"Amanhã às 10 da manhã na rua al-Saadoun, em frente ao Palestina.
Não tragam o vosso carro".
Chegamos ao lugar do encontro na quinta de manhã, de táxi.

O nosso contacto está lá.

Depois de um rápido "Salam Aleikum" entramos no carro dele.

"Onde vamos ?" Sem resposta.
Somos conduzidos durante mais de duas horas.

Em Bagdad, mesmo quanto o trânsito não está completamente bloqueado pelas barreiras militares, os engarrafamentos são permanentes.

Num só ano, mais de 300.000 veículos foram contrabandeados para o país.

Os outros carros todos não têm placas de matrícula e a maior parte dos condutores nem sabe o que quer dizer "carta de condução".
"Não demoramos a chegar. Conhecem Bagdad ?", pergunta o nosso homem.

A resposta é claramente não.

Só aprende a orientar-se nesta imensa cidade que nela circular livremente e a pé.

E os comportamentos criminais, que se espalham como um vírus, a onda de raptos, os 50 ou 60 ataques diários contra as forças de ocupação e a resposta indiscriminada dos soldados americanos, não incentivam nada a andar a pé.
O carro pára numa álea de acesso, junto de um minibus com os vidros fumados.

Abre-se uma das portas.

A bordo estão três homens e um condutor que perscruta atentamente todas as ruas e casas em volta.

Enquanto que nós ignoramos totalmente em que situação nos encontramos, os nossos interlocutores parecem saber muito bem com quem estão a falar.

"Antes de quaisquer conversas, nós não queremos que vocês possam ter dúvidas acerca das nossas identidades", dizem, enquanto tiram alguns papéis de um poeirento saco de plástico: bilhetes de identidade, identificações militares, e várias fotografias que os mostram de uniforme ao lado de Saddam Hussein.

São dois generais e um coronel do desmantelado exército iraquiano, agora em fuga há muitos meses, perseguidos pelas espionagens da coligação.
"Gostaríamos de rectificar alguma informação que anda a circular nos media ocidentais, por isso tomámos a iniciativa de nos encontrarmos convosco".

A conversa dura mais de três horas.


Voltando à queda de Bagdad
"Nós sabíamos que, se os Estados Unidos decidissem atacar o Iraque, não teríamos qualquer hipótese de enfrentar o seu poderio tecnológico e militar. Como a guerra estava antecipadamente perdida, tratámos de preparar o pós-guerra. Por outras palavras: a resistência. Contrariamente ao que tem sido espalhado, nós não desertamos quando as tropas americanas entraram no centro de Bagdad, em 5 de Abril de 2003. Lutamos durante uns dias para honrar o Iraque – e não o Saddam Hussein - e então recebemos ordens para dispersar."
Bagdad caíu em 9 de Abril: Saddam e o seu exército desapareceram.
"Como tínhamos previsto, as zonas estratégicas caíram rapisamente sob o controlo dos americanos e seus aliados. Pela nossa parte, era tempo de executarmos o nosso plano. Já estavam organizados movimentos de oposição à ocupação. A nossa estratégia não foi organizada só quando a regime caíu."

Este plano B, que parece ter totalmente enganado os americanos, foi, segundo estes oficiais, cuidadosamente organizado durante meses ou mesmo anos antes de 20 de Março de 2003, data do início da Operação Liberdade para o Iraque.

Tinha como objectivo "libertar o Iraque e expulsar a coligação. Recuperar a nossa soberania e instalar uma democracia laica, mas não a que os americanos impõem. O Iraque sempre foi um país progressista, nós não queremos voltar para trás, queremos andar para a frente", dizem os três taticistas.

Claro que não darão nomes nem números precisos acerca da rede clandestina.

"Temos o número suficiente, o que não falta são voluntários".


Falluja
A ofensiva mortífera das tropas americanas contra Falluja, em Março, foi um ponto de viragem no que diz respeito à resistência.

A pilhagem indiscriminada dos soldados americanos durante as operações de busca (referida por inúmeras testemunhas) e a humilhação sexual infligida aos prisioneiros, como em Abu Ghraib em Bagdad, serviram apenas para fazer crescer a revolta sentida pela maioria dos iraquianos. "Já não há qualquer confiança, e vai ser difícil reconquistá-la."
Segundo estes dirigentes da resistência, "atingimos o ponto sem regresso".

É exactamente igual o ponto de vista da mulher chiita que havíamos encontrado dois dias antes - antiga militante clandestina da oposição a Saddam: "O maior erro das forças de ocupação foi desprezar as nossas tradições e a nossa cultura. Não lhes basta terem bombardeado as nossas infrastruturas, quiseram destruir o nosso sistema social e a nossa dignidade. Isto, não o podemos permitir. São feridas profundas, vão levar muito tempo a cicatrizar. Preferimos viver sob o terror de um dos nossos a ter de viver na humilhação duma ocupação estrangeira."

Segundo os generais de Saddam, "mais de um ano após o começo da guerra, a insegurança e a anarquia ainda dominam o país. Devido à sua incapacidade para controlarem a situação e manterem as promessas que fizeram, os americanos antagonizaram a população no seu todo. A resistência não se limita a uns milhares de ativistas. Setenta e cinco por cento da população apoia-nos e ajuda-nos, directa e indiretamente, voluntariamente fornecendo informações e escondendo pessoas e armas. E isto apesar de muitos civis serem apanhados como danos colaterais nas nossas operações contra a coligação e os colaboracionistas."

Quem é que eles vêem como "colaboracionistas" ?

"Qualquer iraquiano ou estrangeiro que trabalhe com a coligação é um alvo. Ministros, mercenários, tradutores, homens de negócios, cozinheiros ou empregadas de limpeza, o grau de colaboração não importa. Assinar um contrato com o ocupante equivale a assinar a certidão de óbito. Iraquianos ou não, são traidores. Não se esqueçam de que estamos em guerra."

Os meios de dissuasão da resistência provocaram uma redução incessante da lista de candidatos a postos-chave no governo proposto pela coligação, e isto num país assolado por 13 anos de bloqueio e duas guerras, onde o desemprego se tornou um problema crucial.

O caos ambiente não é a única razão para as pessoas evitarem retomar as suas actividades profissionais.

Se os americanos, rapidamente ultrapassados por toda a situação, viessem a tomar a decisão de reintegrar ex-membros do partido Baas (polícias, agentes secretos, militares, quadros do ministério do petróleo), isso não se aplicaria a toda a gente.

A maior parte das vítimas do decreto de 16 de Maio de 2003 do administrador Paul Bremer que institui a des-baasificação do Iraque são ainda clandestinas.


A rede
Essencialmente composta por baasistas (sunitas e chiitas), a resistência agrupa actualmente "todos os movimentos de luta nacional contra a ocupação, sem distinção confessional, étnica ou política. Ao contrário do que vocês, no ocidente, imaginam, não há no Iraque uma guerra fratricida. Temos uma frente unida contra o inimigo. De Falluja a Ramadi, e incluindo Najaf, Kerbala e os subúrbios chiitas de Bagdad, os combatentes falam a uma só voz.
Tal como o jovem dirigente chiita Muqtada al-Sadr que é, como nós, a favor da unidade do povo iraquiano, multiconfessional e árabe. Nós apoiamo-lo numa perspectiva táctica e logística."
Cada região do Iraque tem os seus próprios combatentes e cada facção é livre

de escolher os seus alvos e o seu modus operandi.

Porém, à medida que o tempo passa, as suas acções são cada vez mais coordenadas.

Os generais de Saddam insistem na inexistência de rivalidade entre estas diferentes organizações, excepto num ponto: qual delas conseguirá eliminar o maior número de americanos.


Armas escolhidas
"Os ataques são meticulosamente preparados. Não podem demorar mais de 20 minutos e operamos de preferência durante a noite ou de manhã muito cedo para limitar os riscos de atingir civis iraquianos."

Eles antecipam a nossa pergunta seguinte: "Não, não temos armas de destruição maciça. Mas temos mais de 50 milhões de armas convencionais."

Por iniciativa de Saddam, um autêntico arsenal foi escondido por todo o Iraque muito antes do começo da guerra. Não é artilharia pesada, não são tanques, nem helicópteros, mas sim Katyushas, morteiros (a que os iraquianos chamam haoun), minas anti-tanque, lança-granadas a propulsão rocket e outros lançadores rocket russos, mísseis, AK 47 e reservas substanciais de todos os tipos de munições. E a lista está longe de ser exaustiva.
Mas a arma mais eficiente continuam a ser os kamikazes.

Uma unidade especial, composta por 90% de iraquianos e 10% de combatentes estrangeiros, com mais de 5.000 homens e mulheres bem treinados.

Basta-lhes uma ordem verbal para conduzirem um veículo carregado de explosivos.
E se as reservas de armas diminuírem ?

"Não nos preocupa, há já algum tempo que fazemos as nossas próprias armas."
E mais não quiseram revelar.


Assumindo a responsabilidade
Sim, nós executamos os quatro mercenários americanos em Falluja, em Março passado.

Mas os soldados americanos demoraram quatro horas a remover os corpos, quando habitualmente o fazem em menos de 20 minutos.

Dois dias antes, uma mulher recém-casada tinha sido arbitrariamente presa.

Para a população de Falluja isto foi o cúmulo, de modo que exprimiu toda a sua fúria sobre os quatro cadáveres.

"Os americanos fizeram coisas bem piores a prisioneiros iraquianos em vida."
O ataque suicida que, em 22 de Setembro de 2003, provocou a morte de Akila al-Hashimi, diplomata e membro do Conselho de Governo Iraquiano, também foi perpetrado pela resistência, tal como o carro-bomba que matou o presidente do órgão executivo iraquiano, Ezzedin Salim, em 17 de Maio deste ano, à entrada da Zona Verde (nome dado pelos iraquianos à Zona Vermelha, devido ao grande número de ataques da resistência).
São também responsáveis pelo rapto de estrangeiros.

"Sabemos muito bem que o rapto de cidadãos estrangeiros prejudica a nossa imagem, mas tentem compreender a situação. Somos forçados a controlar a identidade das pessoas que circulam no nosso território. Se tivermos provas de que são trabalhadores humanitários ou jornalistas, soltamo-los.
Se forem espiões, mercenários ou colaboracionistas, executamo-los.Nesta matéria, queremos deixar claro, não somos responsáveis pela morte de Nick Berg, o americano que foi decapitado."
Tal como o ataque contra a sede da ONU em Bagdad em 20 de Agosto de 2003: "Nunca demos ordem para atacar as Nações Unidas e tínhamos muita estima pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello [representante especial da ONU que morreu no ataque], mas não é impossível que os autores deste ataque suicida venham de outro grupo da resistência. Como explicamos, nós não controlamos tudo. E não se pode esquecer que as Nações Unidas são responsáveis pelos 13 anos de bloqueio que nós sofremos."
E que dizem do ataque de 27 de Outubro de 2003 contra a Cruz Vermelha em Bagdad ?

"Não tivemos nada a ver com isso, sempre tivemos um grande respeito por essa organização e pelas pessoas que trabalham para ela. Que interesse poderíamos ter em atacar uma das poucas instituições que há muitos anos vem ajudando o povo iraquiano ? Sabemos que o ataque foi reivindicado por gente de Falluja, mas podemos afiançar-vos que esses não fazem parte da resistência. E mais: por razões políticas e económicas, há muitos interessados em nos desacreditar."


O pós-30 de Junho
"A resolução 1546 adoptada em 8 de Junho não é mais do que uma nova teia de mentiras aos olhos de muitos iraquianos. Primeiro, porque acaba oficialmente com a ocupação por tropas estrangeiras mas autoriza a presença de uma força multinacional sob comando americano, sem estipular a data da sua retirada.
Segundo, porque o veto iraquiano quanto às operações militares importantes, exigido pela França, pela Rússia e pela China, foi rejeitado. Washington limitou-se a conceder uma vaga noção de partenariado com a autoridade iraquiana e nada estabeleceu para o caso de desacordo. Os iraquianos não são parvos; a manutenção das tropas americanas no Iraque para além do 30 de Junho e o orçamento suplementar que conseguiram do Congresso não deixam dúvidas sobre quem realmente manda no país."

Que dizem acerca de um possível papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)? "Se a OTAN intervier, não é para ajudar o nosso povo, mas sim para ajudar os americanos a saírem deste atoleiro. Se eles quisessem o nosso
bem-estar, deviam ter-se manifestado antes",
dizem os três oficiais enquanto vão olhando para os relógios.

É tarde e já excedemos longamente o tempo que nos foi concedido.
"Aquilo que as tropas americanas não conseguem fazer hoje, não são as tropas da OTAN que conseguirão mais tarde. É preciso que todos saibam: tropas ocidentais serão consideradas pelos iraquianos como ocupantes. Isto é algo em que George W. Bush e o seu fiel amigo Tony Blair têm de pensar muito bem.
Se é certo que ganharam uma batalha, também é certo que ainda não ganharam a guerra. A grande batalha ainda está para começar. A libertação de Bagdad não está longe."

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outubro 18, 2004

domingo, 1 de julho de 2007

O DESENHO DO HUMOR NA RAZÃO DOS OPRIMIDOS


Entrevista: Carlos Latuff

Marcelo Salles


Carlos Latuff é carioca, nascido em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Pai servidor público, mãe dona de casa. Estudou até o ensino médio (antigo segundo grau) e começou a trabalhar aos 14 anos, como ofice-boy de um banco. Seu primeiro contato profissional como artista aconteceu numa agência de propaganda, em 1989. Daí em diante, Latuff passou a trabalhar na imprensa sindical e após assistir a um documentário sobre os zapatistas colocou seu traço a favor de diversas causas. Em 1999 visitou os territórios ocupados da Palestina e hoje, aos 38 anos, tem seus desenhos reproduzidos no mundo inteiro. Mas o mesmo motivo do reconhecimento causou-lhe problemas. Além de ter sido detido duas vezes pela polícia carioca devido a desenhos sobre violência e corrupção policial, Latuff foi ameaçado de morte por um grupo ligado ao Likud, partido de extrema-direita israelense.


AND - Em que situação você começou a usar o desenho como trabalho?

— Eu sempre desenhei e os meus pais diziam “ah, quando crescer vai ser desenhista”. Mas essa coisa de ser desenhista, era meio distante, porque o que sempre foi colocado pra gente é que desenhista tinha que ter um padrinho, era coisa burguesa. Tanto que comecei a trabalhar num banco, com 14 anos, como ofice-boy. A idéia de ser desenhista era distante, então tinha que pegar aquilo que estivesse à mão. Depois eu fui trabalhar numa firma de aparelhos ortopédicos e, em seguida, como ofice-boy numa editora. Nesse meio tempo, fiquei numa loja que fabricava adesivos e foi o primeiro contato realmente profissional com o desenho, em que eu pude aplicar alguns dos meus conhecimentos. Aí em 1989 fui trabalhar numa agência de propaganda como ilustrador. Aí, sim, começou minha carreira.

AND - E desse primeiro contato com o desenho na agência para o desenho político, como foi?

— Em 1998 eu tive contato com os zapatistas, que se deu através de um documentário na TV. Aquele movimento começou a abrir a minha cabeça para o meu papel como artista dentro de um contexto de transformação social, política. Então, esse ser politizado, esse artista engajado, nasceu a partir desse contato que eu tive, intelectual, porque eu nunca estive em Chiapas, infelizmente.

AND - Isso lhe afetou de alguma maneira?

— Sim, bastante. Me pareceu uma coisa fantástica, uma população indígena sofrendo pressões inacreditáveis e resistindo. E o governo mexicano respondendo com tropas e tal. Foi aí que nasceu esse princípio do apoio artístico à causa. Produzir imagem copyleft*, sem direitos autorais, em que abri o direito de reprodução, colocando como domínio público na internet, para que todos pudessem reproduzir da melhor maneira que os conviesse. Essa foi a primeira experiência que tive com os zapatistas e foi aí que tomou corpo o ativismo, como se diz.

AND - Você acabou se engajando em outras causas também. E todas têm essa ligação: um determinado grupo, político, nacional, o que seja, mas que sofre uma agressão e tenta resistir de alguma maneira...

— O que sinto é o seguinte: me toca bastante poder presenciar a resistência. Eu tenho sempre essa frase na cabeça, o lema de uma greve que teve na Universidade Autônoma do México: “subversão é vida, submissão é morte”. Que aquele povo indígena, naquelas condições precaríssimas e tão discriminados por um segmento branco, burguês, da sociedade mexicana, levantar-se em armas, em palavras, em ação. Isso pra mim é a natureza inquebrantável do ser humano. É a possibilidade dele se deparar com uma situação terrível de opressão e não se deixar abater, não baixar a cabeça, não dobrar os joelhos. É essa coisa da dignidade realmente que sempre me chamou a atenção. E começou a me chamar mais atenção a partir dos zapatistas, até chegar o caso dos palestinos.

AND - Você visitou a Palestina?

— A visita à Palestina se deu através de um convite de uma organização civil que viu um desenho meu na internet. Quando vemos a coisa ao vivo e em cores, o choque é inevitável. Em qualquer lugar, tem a presença de militares israelenses. Havia uma autonomia muito limitada de autoridades palestinas, que tinha uma polícia palestina, mas a qualquer momento você via patrulhas israelenses... Esse contato com a realidade é transformador.

AND - Como atua o monopólio da imprensa na divulgação da situação palestina?

— Os veículos do monopólio da imprensa só dão notícias quando uma bomba explode, um homem-bomba explodiu em Jerusalém. Aí essa imprensa cobre. Ou então um ataque israelense à Gaza que mata um monte de gente. São processos violentos, dos quais a “mídia” se alimenta, porque ela é realmente o drácula, ela se alimenta de sangue, ela vive disso. A audiência televisiva é que nem pressão sanguínea: ela funciona com sangue mesmo. Sendo que o conflito do Oriente Médio é o que tem mais cobertura. Todos os canais estão lá. Você sempre vê cobertura do Oriente Médio o tempo todo, mas é a cobertura do monopólio. Ele não trata das raízes do problema, nem do dia-a-dia. Trata dos efeitos e das reações violentas. Ponto. “Morreu alguém, beleza!, mas ele não mostra, por exemplo, as dificuldades que os palestinos têm de se locomoverem no seu próprio território. O monopólio das comunicações não mostra, por exemplo, uma mulher que é obrigada a dar a luz num check-point e o soldado sionista impede o sujeito de transitar dentro do seu próprio território. Ele não mostra, em Hebron, como é que os colonos sionistas atiraram pedras nos palestinos. Não mostram como eles destroem plantações de oliveiras dos palestinos. Não mostram demolições de casas. Quer dizer, para aquele tipo de imprensa não interessa o lado palestino. Então ela não acompanha o dia-a-dia.

AND - Foi depois da sua ida à Palestina que você sofreu ameaças daquele grupo ligado ao Likud?

— Esses setores reacionários da comunidade judaica se levantaram, evidentemente. Seja emitindo opiniões em blogues ou mesmo fazendo ameaças abertas em páginas da internet. O que também não me surpreende porque quando se vai contra interesses de determinados grupos, evidentemente se espera por algum tipo de reação. Agora, o interessante é que estamos falando de um lobby influente, poderoso, atento a qualquer crítica à política de Israel. E o lobby está pronto para responder, com as alegações de sempre, de anti-semitismo. Quer dizer, falseiam dizendo que crítica ao Estado de Israel é sempre anti-semitismo. O lobby invariavelmente quer associar a defesa aos direitos do povo palestino, a solução do problema — seja através de um Estado para os dois povos ou de dois Estados para os dois povos —, à questão do judaísmo, ao anti-semitismo.

AND - Em que se resume isso?

— Na tentativa de silenciar, de ocultar a causa palestina; de desviar a discussão. A questão palestina nada tem a ver com judaísmo em si. Fossem chineses oprimindo palestinos, eu estaria criticando os chineses, certamente. Vou dar um exemplo de como o anti-semitismo é colocado a serviço do status quo. Você pode fazer, por exemplo, uma charge esculhambando o Bush. Você pode chamar o Bush de filho de uma Condolezza, sem nenhum problema. Vai ter reação, mas dificilmente alguém lhe chamará de racista. Você pode representar o Tony Blair como um macaco que ninguém vai lhe chamar de racista. Pode ser o Lula... Agora, se for o Ariel Sharon — e eu já fiz uma série de charges sobre ele, esculhambando mesmo porque o cara é um desgraçado, um assassino, é um dos carniceiros de Sabra e Chatila — fui chamado de anti-semita. Por quê? Porque o Sharon é judeu. Se o Ariel Sharon fosse cristão, não teria problema. Os sionistas, o Estado de Israel, não querem a solução do problema porque é importante que os palestinos sempre sejam vistos como inimigos. Assim eles justificam a grana, os bilhões de dólares que os Estados Unidos mandam para reforçar a máquina de guerra e o aparato de segurança de Israel.

AND - E, voltando à América Latina, como é que você vê a política do USA para a região?

— O USA está preocupado, demonstrou uma grande preocupação com a América Latina. E a América Latina, historicamente falando, sempre foi resistente a Washington. Não se pode esquecer dos anos 60, aquele monte de golpes militares, tudo bancado pela CIA. Não é à toa que teve Cuba, não é à toa que teve a revolução sandinista, não é à toa que teve o golpe contra o Salvador Allende, (teve e têm) muitas guerrilhas... Os amigos comunistas costumam dizer que realmente aqui sempre foi e continua sendo palco de confronto com as políticas do USA.

AND - Voltando ao Brasil: você fez um trabalho importante sobre a violência policial, que aconteceu sobretudo nos bairros proletários. Queria que você contasse aquela história de que, por causa dos seus desenhos, você foi parar na delegacia.

— Eu fiz uns cartazes para propaganda de uma exposição. E em algum momento a polícia chegou, pegou os coladores e levou todo mundo para a delegacia. Tive que ir prestar depoimento e tal. Agora, acho também que a violência policial não pode ser tratada como um caso isolado, como produto único e exclusivo da polícia. A polícia não é autônoma, mas faz parte do aparato de Estado. Ela é corrente de transmissão do pensamento do Estado, da função do Estado, o braço armado do Estado. Então é preciso que se entenda a violência policial e todo esse desdobramento, dentro dessa lógica de Estado.

AND - E qual seria?

— A repressão do Estado e não simplesmente a violência policial como um fato, como se o responsável por isso fosse apenas o policial. Se o policial tem liberdade para fazer isso é porque alguém lhe confere essa liberdade. E quem confere essa liberdade ao policial é o Estado. Quando mataram aquelas crianças na Candelária, a classe média aplaudiu aquilo ali. Quando a polícia “passou o cerol” naqueles 111 em Carandiru, parte da classe média bateu palma. Então setores da classe média foram a favor do Exército na rua. Muita gente fala: “que saudade da época do regime militar”. Tem uma parte da classe média que se mantém reacionária e serve como base social que apóia as atrocidades contra o povo. Então, se temos essa polícia truculenta, ela não se deu do nada. Além de ser uma construção da época da ditadura, tem policiais que serviram na ditadura e hoje são comandantes de batalhão ou delegados. Ainda tem gente que serviu à ditadura que hoje está ligada às forças de segurança. Esse ranço da ditadura continua.

AND - E esse modelo de repressão está ligado ao modelo econômico adotado?

— Não sei se é só o modelo econômico, não. Você tem países ditos desenvolvidos, ricos, onde as pessoas vivem melhor. Mas se a polícia tiver que te quebrar, ela quebra também. A polícia é o aparato de segurança. Ela não tem outra alternativa a não ser reprimir. Ela é feita para isso. É a máquina do Estado para reprimir. Essa história de polícia humanizada me parece algo irreal. Se uma autoridade te dá um fuzil AR-15, ela já está partindo do pressuposto que você tem que estar preparado para matar ou morrer. Para começo de conversa, é arma de guerra. O cara não está usando ali arma para munição de borracha, arma de choque. Ele tá usando arma de guerra. Mesmo uma 45, uma 9mm... O problema que eu coloco é filosófico: por que a sociedade precisa de polícia?

AND - Você acredita que o capitalismo pode resolver os problemas da humanidade?

— Não, não... Nem um pouco. Temos visto o que tem feito o capitalismo, onde tem nos levado. O capitalismo é a destruição, o caos. O capitalismo é a barbárie. A partir do momento em que o capital vale mais que o social, tudo vale. O social é o respeito à vida, respeito aos valores humanos. A partir do momento em que isso tem um papel terciário, o mais importante é ganhar dinheiro, é o lucro, acabou-se.


*NR - Copyleft é trocadilho político. Lembra copyright (dos direitos autorais), mas brinca com o right e o left (esquerda e direita). Nesse caso, são direitos autorais da esquerda.