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domingo, 21 de outubro de 2007

Saddam e a Liberdade da Igreja



Um amigo de Saddampor Renato Pompeu


O arcebispo ortodoxo de Bagdá, dom Severius (foto), esteve em São Paulo em agosto.
Ele critica as ameaças americanas.
Mais uma indicação de que a grande mídia detesta novidades que fujam à rotina e que não se enquadrem no unilateralismo da visão ocidentocêntrica dos problemas internacionais: a presença no Brasil, durante agosto, do principal dignitário eclesiástico cristão no Iraque não foi sequer noticiada.
Talvez isso se deva a que não convenha, para o "pluralismo" dominante, divulgar que, para o arcebispo de Bagdá e Basra da Igreja Ortodoxa Síria, dom Severius Hawa, 72 anos – embora ele faça questão de ressaltar que a Igreja não se envolve de modo nenhum em questões políticas –, Saddam Hussein "é muito boa gente. Inteligente, gosta do povo; visita sempre os pobres, entra na casa, vai até a cozinha, abre a geladeira e, se falta alguma coisa, manda comprar na hora, dá dinheiro".

Falando na casa paroquial da Igreja de São João Batista, em Mirandópolis, bairro de classe média na zona sul de São Paulo – onde foi pároco nos anos 1960 –, dom Severius, nascido em Nínive, antiga capital da Assíria, hoje perto do centro petrolífero de Mossul, no Iraque, afirma que "reina cem por cento de liberdade religiosa no Iraque e há, inclusive, uma sinagoga em pleno funcionamento em Bagdá".
Segundo dom Severius, embora sua Igreja não tenha uma posição oficial sobre regimes políticos, o seu rebanho de 700.000 fiéis é constituído de patriotas iraquianos, não havendo "nenhum cristão" entre os grupos de oposição a Saddam.

Na verdade, pouca gente no Ocidente sabe que os cristãos ocupam uma posição estratégica no Iraque.
Basta dizer que o vice-primeiro-ministro, Tariq AZIZ, ex-ministro do Exterior, e o ministro das Obras Públicas, Maan Sarsan, são cristãos.
Essa posição estratégica dos cristãos se deve a que eles constituem uma parte da elite intelectual iraquiana, pois, na maioria, os cristãos são médicos, advogados, engenheiros, professores universitários, muitos deles formados na Inglaterra, antiga metrópole colonial do Iraque.
De acordo com dom Severius, "a Igreja não assume atitude política, mas respeita a autoridade. A Igreja é contra a guerra, a favor da paz; quanto ao povo, tem de cumprir o dever, sem que a Igreja interfira. Nossos discursos pregam a paz, a harmonia, a paciência. Durante a guerra de 1991, todos os bispos da Igreja Ortodoxa Síria pediram à ONU, ao papa João Paulo II e a outras instituições e pessoas que contribuíssem para pôr fim ao conflito. Também pedimos que seja suspenso o cerco comercial ao Iraque e exigimos uma solução pacífica para os problemas do povo palestino".

Diz o arcebispo que "a Igreja não se coloca contra cristãos patriotas", mas que, quando se encontra com Saddam, de quem se considera amigo pessoal, "pregamos sempre a paz, a concórdia, o amor. Os cristãos são a favor da paz. A política dos Estados Unidos não segue a doutrina de paz de Jesus. O Iraque é uma terra abençoada: tem petróleo, tem fósforo, tem ferro. É isso o que os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Europa querem".
Quanto ao Kuwait, dom Severius diz de novo que a Igreja não tem posição sobre o assunto, mas que os cristãos iraquianos julgam, como os demais iraquianos, que o Kuwait faz parte de seu país e dele foi separado por interesses, na época, da Grã-Bretanha.
Afirma o prelado que, na verdade, na Arábia Saudita, aliada do Ocidente, é que não existe de modo nenhum liberdade religiosa, a ponto de que não há nenhuma igreja cristã em território saudita.

Também no Kuwait a liberdade religiosa não é plena: mais de uma vez, as autoridades estiveram prestes a fechar as duas únicas igrejas cristãs do país, uma católica romana e a outra ortodoxa grega.
Sempre segundo o arcebispo de Bagdá e Basra, no Iraque não há restrições a costumes ocidentais.
Enquanto na Arábia Saudita e no Kuwait as mulheres são obrigadas a cobrir o corpo todo, no Iraque circulam moças até de minissaia.

Na verdade, dom Severius acha que, no Iraque, há "muita liberdade".
Ele ressalta, por exemplo, que o governo de Saddam reservou 2 milhões de dólares para a restauração do Mosteiro de São Mateus, em Mossul, que data de 393 d.C.
Além dos ortodoxos sírios, existem outros cristãos no Iraque: católicos romanos, nes-torianos, coptas, armênios.
O próprio irmão do arcebispo, Hanna Hawa, é oficial reformado do Exército do Iraque.
Dom Severius conta que, quando era bem jovem, seu pai teve uma parada cardíaca e foi dado como morto pelos médicos.
No entanto, o pai mais tarde "despertou" e contou que, em sonhos, tivera a visão de um homem chegando a cavalo; era Jesus, que dizia: "Levanta!"
E o pai levantou.
A partir daí, o pai, que já era um fiel religioso, passou a freqüentar ainda mais a Igreja e as obras, levando os filhos – e o menino Severius decidiu dedicar-se à vida sacerdotal.

Fez o seminário em Nínive e foi enviado ao Brasil em 1961, como pároco no bairro paulistano de Mirandópolis.
O culto em sua Igreja é feito em árabe, em siríaco ou aramaico (a língua em que Jesus falava), a língua original de seu povo.
Ficou no Brasil até 1970, funcionando, segundo seus antigos paroquianos e paroquianas, como "um anjo bom", que, além de oficiar os cultos, visitava as famílias, agindo como um segundo pai ou irmão que ajudava a resolver os conflitos familiares.
A Igreja Ortodoxa de que dom Severius faz parte tem 50 milhões de fiéis no mundo inteiro, inclusive 2.000 famílias no Brasil, em São Paulo, Campo Grande e Belo Horizonte.
Segundo o arquiteto e escritor Ibrahim Sowmy, já falecido, nascido na Turquia e radicado no pós-Segunda Guerra em São Paulo, onde ajudou a construir a Igreja de São João Batista, "sírio", "siríaco" e "assírio" são a mesma palavra: entre Síria e Assíria existe a mesma diferença que entre Corão e Alcorão, ou seja, a ausência ou a presença do artigo definido.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor de Memórias de Uma Bola de Futebol.
http://carosamigos.terra.com.br/da_revista/edicoes/ed66/renato_pompeu.asp

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Crimes de guerra
Homenagem ao Iraque
Yasmin Anukit*
Quando digo "homenagem ao Iraque", expresso minha profunda consternação pela agenda criminosa a que tem sido submetida esta terra.
Incluo aí a esperança de que a vitória dos povos do Oriente Médio possa conduzir à liberdade verdadeira e o desejo de que a fênix, um dia, renasça das cinzas.
Afinal, a águia é o emblema do Iraque.
A própria bandeira do país, constituída pelas três cores da "opus magna" (o branco da origem, o vermelho da exaltação e o negro da dissolução), indica a vocação de morrer e renascer infinitamente.
Sedimentando, às margens do Tigre e do Eufrates, a Mesopotâmia e, muitos milênios depois, o Califado, que desde Baghdad, inundaria o mundo, a alma do povo iraquiano sempre demonstrou uma consciência inexaurível das possibilidades de reengendramento da vida e da morte.
O próprio significado das "Mil e Uma Noites" designa o ciclo interminável do eterno retorno. Sobrepondo-se às cores da bandeira brilham as três estrelas verdes (Unidade, Liberdade e Socialismo) e o lema: Allah hu Akbar!"- Deus é Maior - indicando que, além da contingência, Ele permanece.
Alguns mitos falaciosos e equivocados serviram de legitimação arbitrária para a guerra.
Em primeiro lugar, a acusação sobre o uso de "armas químicas".
O Iraque admitiu o uso de armas químicas para pôr fim ao conflito de oito anos com o Irã, no momento em que a infantaria iraniana ameaçava assolá-los.
A verdade é que as potências do primeiro mundo reivindicam o monopólio exclusivo destas armas.
Sob a cobertura da "ameaça química iraquiana" - cujo precedente foi o ataque à aldeia curda de Hallabja, terminantemente negado pelo vice-primeiro ministro Tarik Aziz e pelo professor da Escola Superior de Guerra dos EUA, Stephan Pelletière - oculta-se o crime das Nações Unidas ao aprovar, na guerra do Golfo de 1991, o lançamento de mais de 300 toneladas de urano empobrecido sobre Basra, no sul, levando à morte lenta milhares de pessoas, por câncer, leucemia e deformações várias.
Desde então, o país tem sido bombardeado pela aliança anglo-americana, ininterruptamente, com armas não convencionais.
Além disso, despejou-se sobre as lavouras todo tipo de germes e vírus, contaminando, assim, a agricultura local e a água potável.
Agora vem o "golpe de misericórdia".
Esses bombardeios atingiram as chamadas "zonas de exclusão aérea", contrárias à lei internacional, pois o Iraque teria direito à defesa sobre aqueles 2/3 do território.
Passo a passo, a soberania do país foi minada, com fins à recolonização e redesenhamento do mapa geopolítico do Oriente Médio, sob a hegemonia de Israel.
Ao nacionalizar o petróleo em 1972, o Iraque quis garantir, com isso, sua emancipação econômica, bem como reverter, pelo socialismo, a distribuição da riqueza ao povo, mediante os serviços gratuitos de saúde, medicamentos e educação.
A República Popular Democrática do Iraque, visou, desde a revolução de 68, garantir a seus cidadãos, homens e mulheres, igualdade de direitos, sem distinção confessional ou tribalista, bem como arremessar a vanguarda da luta pela libertação dos povos árabes, incluindo a Palestina.
Tentando evitar isso, a Cia insuflou rebeliões no norte e no sul, para desestabilizar o governo central, aplicando a velha tática de "dividir para reinar".
Dizer que os EUA querem levar a "democracia" ao Iraque é, no mínimo, uma piada.
Sua meta é privatizar a grande estatal iraquiana,fazendo do país, o negócio do século.
O embargo econômico que a ONU ainda permite durar - na verdade, uma guerra biológica, histórica e civilizacional - demoliu sistematicamente todo o progresso que o Iraque havia conquistado antes.
A imagem midiática daquela terra é a de um deserto com poços de petróleo.
Mas ali existem mais de 500 mil sítios arqueológicos e monumentos inestimáveis: Mossul, rica por suas igrejas e mosteiros do século XIII; Najaf e Kerballah, cidades-santuários xiitas, que abrigam tumbas do Imam Ali e Al-Hussein, da família do Profeta, as figuras mais veneradas por todos os muçulmanos.
Cada pedaço do Iraque é uma relíquia onde se sobrepõem camadas imemoriais.
Na última guerra do Golfo, museus foram saqueados, entre eles, o grande Museu de Baghdad, tendo desaparecido milhares de peças de valor incalculável, fato que hoje se repete em proporções catastróficas.
Obras arquitetônicas como o zigurat de Ur, o arco sassânida de Ctesifonte, mesquitas preciosamente talhadas com revestimentos de ouro, universidades seculares, como Al-Mustansiria, tudo tem sido danificado e agora, mais uma vez, agonizam.
O governo pediu a colaboração da Unesco em 1991, mas esta lhe foi negada.
Um trabalho gigantesco foi feito por Saddam Hussein, antes da atual guerra, para esconder e proteger os valiosos tesouros do país - tão importantes quanto os do antigo Egito.
Para Saddam e para o partido Baath (renascimento) - pois seu objetivo é o renascimento da Nação Árabe - as relíquias arqueológicas e os monumentos históricos são o ponto de partida para reivindicar sua identidade cultural.
Hoje vemos a destruição chegar ao ponto culminante.
As ruínas da Babilônia foram arrasadas.
Saqueadores e incendiários (chamados de Ali Baba), comprometidos com os invasores, atearam fogo à Biblioteca Nacional de Baghdad e à Biblioteca de Alcorões, na deliberação criminosa de apagar a memória do Iraque, tanto dos tempos primordiais, como do Islam.
Por detrás do vandalismo ianque, esconde-se o complot milenar do sionismo internacional, que finalmente, após dois mil e quinhentos anos de espera, vai à desforra, vingando-se da destruição de Jerusalém pelo rei Nabucodonosor, hoje comparado a Saddam Hussein.
Isso equivale a jogar o país no "tempo zero", a decapitar, sinistramente, o seu papel na história para beneficiar a nova ditadura da coca-cola.
Pergunta o jornalista Robert Fisk, ( The Independent ): "Quem mandou os incendiários? Quem quer destruir a identidade deste país?"
A ciber-guerra tecnológica contra a terra onde surgiu a escrita e onde o Islã atingiu o apogeu, implica numa "Nova Ordem Mundial" que deseja apagar os vestígios do passado e sabotar seu novo ímpeto.
Lixo radioativo foi reempregado pelo exército invasor.
Um povo antigo, cheio de sentimentos, fé, paixões, ideais e orgulho de suas origens, ainda resiste.
A abaya negra das mulheres do Iraque logo se transformará num símbolo de luto para toda a humanidade.
Mas as raízes do povo da Mesopotâmia estão solidamente cravadas nas fundações do tempo. Esperamos que renasçam ainda.
Já cerca de um ano antes desta guerra, Saddam escreveu: "Os bárbaros desta era desejam aniquilar a ' mãe da civilização'. Digam-lhes numa voz clara e alta: Ó demônios, erradicai vossas abominações contra nós, nosso museu vivo, testemunho e celeiro dos profetas, como Abraão. Digam-lhes para deixar nosso povo construir, construir até o topo e trabalhar para uma cooperação frutífera e pelo amor entre os homens. A despeito das feridas e injúrias lançadas à filha dos árabes (Baghdad), a tocha de luz para a humanidade prevalecerá, sua face esplêndida, cintilante, incandescente na fé, saudável e intocada pela desonra." (Saddam Hussein, 2002, discursos)
Mesopotâmia (1)
Era uma vez, a "terra entre dois rios": um arabesco ornado pelo vento, porto de antigos sonhos e navios... flor consagrada no jardim do tempo!
Tal terra foi chamada "paraíso": bíblico berço incólume da História!
Ali se ergueram torres cujo piso subiu ao alto cume em toda a glória!
Mas o Ocidente bárbaro e hostil, sem leme, sem raízes, nem passado, deitou à areia a água do cantil que à humanidade havia saciado!
É o videogame, a tecnologia rasgando a alma árabe, a mais secreta, é essa cultura da selvageria que abafa a voz eterna do Profeta!
O grito da Jihad, então, virá... e todo o mundo islâmico há de inflamar: "Meu sangue e vida dou por Baghdad!" Deus é Maior! "Allah hu Akbar!"
E os Anjos do Senhor, em altos brados, irão abrir as portas de Babel(2), louvando o sangue mártir derramado dos fedayin(3) em luta para o Céu!
________________________________*Professora de estudos Orientais, História da Arte e Civilização Islâmica)
(1) mesopotâmia: "terra entre rios"
(2) Babel: "porta de Deus"
(3) fedayin: "os que se sacrificam"